Visão cristã

Teologia

  
 
 

Cristo, a Plenitude

 Caro Leitor, mais umas palavras de Daniélou:

 Temos agora os princípios que nos permitirão resolver o problema posto já de início na relação do cristianismo com as outras religiões. Ele apresenta a seu respeito uma dupla relação histórica e dramática. Primeiramente em relação a essas civilizações o cristianismo é essencialmente uma novidade (...): o cristianismo é a eterna juventude do mundo. (Observação minha: Convém notar que, aqui, não se trata de um arroubo teórico ou entusiástico do Autor. O cristianismo é, realmente, a eterna juventude do mundo, porque é o espaço vital onde se entra em contato com a Pessoa de Jesus Cristo, onde se experimenta a sua graça que sempre renova, cura e eleva a humanidade, levando-a a dar o melhor de si mesma. Além do mais, o cristianismo assume e purifica tudo quanto existe de reto, justo e compatível com a divina revelação, que chegou à plenitude em Jesus nosso Senhor. Por outro lado, a fé cristã afirma e denuncia claramente tudo quanto é perverso, pervertido ou perversor nas várias tradições religiosas).

A angústia que atualmente oprime certas almas consiste em si perguntar se o cristianismo não está ultrapassado, envelhecido. (...) O cristianismo é e permanecerá sempre a juventude do mundo porque ele se acha precisa e cronologicamente na base do desenvolvimento da história. (Observação minha: Como compreender tal afirmação? Se considerarmos a história do ponto de vista da fé cristã, aparece claro que toda a criação e toda a humanidade foram criados e existem em função da autocomunicação plena de Deus, que se deu em Jesus Cristo. Como diz São Paulo: "Tudo foi criado através dele e para ele; ele é antes de tudo e tudo nele subsiste").

E a verdadeira relação do cristianismo com todas as outras religiões consiste justamente em serem elas, com relação a ele, anteriores, ultrapassadas. Não digo que sejam falsas inteiramente: o judaísmo não é falso, o budismo não é falso, as civilizações fetichistas não são falas; são velhas, isto é, em relação ao cristianismo, encontram-se em estado de anterioridade cronológica e são, de certo modo, sobrevivências; o cristianismo, que as completa, surgiu e, a partir de então, tudo aquilo que havia nelas de bom é realizado pelo cristianismo. (Observação minha: O cristianismo é a única religião verdadeira, no sentido de que ser cristão é o que Deus sonhou e deseja para toda a humanidade e para cada homem que vem a este mundo. Mesmo as religiões que surgiram depois do cristianismo, como o islamismo, são velhas, antigas e ultrapassadas em relação à perene novidade cristã).

Quanto ao judaísmo (...), evidentemente ele é todo orientado para o cristianismo. O mesmo se dá com as religiões não-cristãs. Elas não são falsas, mas essencialmente incompletas, inacabadas. Lembremo-nos das palavras de Santo Irineu: Deus familiarizou o homem com certas verdades naturais, com certo senso de Deus. Mas essas civilizações permaneceram nesse estágio e não se abriram para a plenitude da Revelação. Outras, enfim, como o Islã, seriam antes, regressões... (Observação minha: O que o Autor deseja expressar é que as várias religiões, de certo modo preparam para o cristianismo, enquanto são uma abertura para o Transcedente e trazem em sua doutrina alguns elementos que realmente tornam depois o acolhimento do Evangelho mais fácil. Isto, no entanto, não significa que essas religiões sejam verdadeiras - a única religio vera é o cristianismo. Tão pouco se deve afirmar que essas religiões enquanto tais sejam salvíficas. Além do cristianismo, a única que possui elementos salvíficos, estritamente falando, é o judaísmo, enquanto não claramente é não é uma religião falsa, mas incompleta em si mesma, enquanto é toda tendente para uma plenitude que somente em Cristo pode efetivar-se).


 



Escrito por Pe. Henrique às 16h28
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A geração: no amor entre homem e mulher

Caro Internauta, lá vai mais um trecho da Instrução Dignitas Personae:

No que se refere à cura da infertilidade, as novas técnicas médicas devem respeitar três bens fundamentais:

a) o direito à vida e à integridade física de cada ser humano, desde a concepção até à morte natural;

b) a unidade do matrimônio, que comporta o recíproco respeito do direito dos cônjuges a tornarem-se pai e mãe somente um através do outro;

c) os valores especificamente humanos da sexualidade, que «exigem que a procriação de uma pessoa humana deva ser buscada como o fruto do ato conjugal específico do amor entre os esposos».

As técnicas que se apresentam como uma ajuda à procriação «não devem ser recusadas pelo fato de serem artificiais. Como tais, mostram as possibilidades da arte médica. Sob o aspecto moral, porém, devem ser avaliadas com referência à dignidade da pessoa humana, chamada a realizar a vocação divina ao dom do amor e ao dom da vida» .

À luz de tal critério, são de excluir todas as técnicas de fecundação artificial heteróloga (Por fecundação ou procriação artificial heteróloga entendem-se «as técnicas destinadas a obter artificialmente uma concepção humana a partir dos gâmetas provenientes de ao menos um doador diverso dos esposos que são unidos em matrimônio») e as técnicas de fecundação artificial homóloga (Por fecundação ou procriação artificial homóloga entende-se «a técnica destinada a obter uma concepção humana a partir dos gametas de dois esposos unidos em matrimônio») que substituem o ato conjugal.

Ao contrário, são admissíveis as técnicas que se configuram como uma ajuda ao ato conjugal e à sua fecundidade. A Instrução Donum vitae exprime-se assim: «o médico está ao serviço das pessoas e da procriação humana: não possui a faculdade de dispor delas nem de decidir a seu respeito. A intervenção médica respeita a dignidade das pessoas, quando visa ajudar o ato conjugal, quer facilitando-lhe a realização plena, quer permitindo que alcance o seu fim, uma vez que tenha sido realizado normalmente».

E, a propósito da inseminação artificial homóloga, diz: «a inseminação artificial homóloga, dentro do matrimônio, não pode ser admitida, com exceção do caso em que o meio técnico resulte não substitutivo do ato conjugal, mas se configure como uma facilitação e um auxílio para que aquele atinja a sua finalidade natural».

São certamente lícitas as intervenções que visam remover os obstáculos que se opõem à fertilidade natural, como, por exemplo, a cura hormonal da infertilidade de origem gonádica, a cura cirúrgica de uma endometriose, a desobstrução tubárica ou a restauração microcirúrgica da perviedade tubárica. Todas estas técnicas podem ser consideradas autênticas terapias, na medida em que, uma vez resolvido o problema que estava na origem da infertilidade, o casal possa realizar atos conjugais com êxito procriativo, sem que o médico deva interferir diretamente no próprio ato conjugal. Nenhuma destas técnicas substitui o ato conjugal, que é o único digno de uma procriação verdadeiramente responsável.

Para ir ao encontro do desejo de não poucos casais estéreis de terem um filho, seria bom encorajar, promover e facilitar com oportunas medidas legislativas o procedimento da adoção de numerosas crianças órfãs, que necessitam, para o seu adequado crescimento humano, de um lar doméstico. Enfim, merecem ser encorajadas as investigações e os investimentos feitos na prevenção da esterilidade.



Escrito por Pe. Henrique às 11h44
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O mistério do Batismo do Senhor

A Festa do Batismo do Senhor é riquíssima de significado teológico, místico e espiritual. Infelizmente, com a pobreza litúrgica e teológica da qual a Igreja latina padece hoje em dia, todo este significado permanece escondido e não é disponibilizado para o alimento dos fiéis, que têm todo o direito de conhecer as riquezas da nossa fé católica! Eis, a seguir, alguns dos mistérios de nossa fé presentes na festa de hoje:

1. O Batismo do Senhor encerra o sagrado Tempo do Natal. É importante recordar que, na liturgia da Igreja, este Tempo não é simplesmente a comemoração litúrgica do nascimento de Jesus, mas é, sobretudo, a celebração memorial da manifestação do Senhor na nossa natureza humana. Eis o mistério que a Igreja celebra nas cinco festas (Natal, Sagrada Família, Santa Maria Mãe de Deus, Epifania, Batismo do Senhor): o Filho eterno do eterno Pai, Deus perfeito e verdadeiro, fez-se homem e assumiu nossa carne mortal, num verdadeiro corpo e numa verdadeira alma humana. Assim, Deus manifestou-se na nossa humanidade para curá-la do pecado e elevá-la à vida divina. Deus, agora, pode ser visto, tocado e apreendido humanamente: com o humano, atraiu e salvou o humano, dando-nos a sua vida divina! É o admirável comércio de que tanto falavam os Santos Padres e a santa Liturgia: "Quando Cristo se manifestou em nossa carne mortal, vós nos recriastes na luz eterna de sua divindade" (Prefácio da Epifania); "Por ele, realiza-se hoje o maravilhoso encontro que nos dá vida nova em plenitude. No memento em que vosso Filho assume nossa fraqueza, a natureza humana recebe uma incomparável dignidade: ao tornar-se ele um de nós, nós nos tornamos eternos" (Prefácio do Natal III); "Deus eterno e todo-poderoso, pela vinda do vosso Filho, vos manifestastes em nova luz. Assim como ele quis participar da nossa humanidade, nascendo da Virgem, dai-nos participar de sua vida no Reino" (Coleta do sábado antes da Epifania); "Deus eterno e todo-poderoso, pelo vosso Filho nos fizestes nova criatura para vós. Dai-nos, pela vossa graça, participar da divindade daquele que uniu a vós a nossa humanidade" (Coleta do sábado após a Epifania). A Festa do Batismo do Senhor é a última dessas cinco festas da Manifestação do Salvador: hoje, às margens do Jordão, o Pai manifesta publicamente Jesus a Israel para o início do seu ministério público. A obra de salvação iniciada com a Encarnação e o seu santo Nascimento, agora se manifesta numa nova etapa: a sua vida pública, na qual tornar-se-á patente aquilo que o Salvador veio realizar.

2. Jesus dirige-se ao Jordão para ser batizado por João. Era um batismo ministrado a quem se reconhecia pecador e desejava entrar num caminho de penitência e conversão para receber o Messias prometido e esperado. É impressionante: o Santo e Justo, o Filho inocente e bendito, entra, humilde, na fila dos pecadores! São as palavras do profeta Isaías que se vão cumprindo: "Eram as nossas enfermidades que ele levava sobre si, as nossas dores ele carregava. Mas nós o tínhamos como vítima do castigo, ferido por Deus e humilhado. Mas ele foi trespassado por causa das nossas transgressões, esmagado em virtude das nossas iniquidades. O castigo que havia de trazer-nos a paz, caiu sobre ele, sim, por suas feridas fomos curados. Todos nós como ovelhas, andávamos errantes, seguindo cada um o seu próprio caminho; mas o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de todos nós (Is 53,4-6). Ele, sem pecado, faz-se um com a humanidade pecadora para redimi-la de seus pecados. Aparece aqui, de modo claro, o quanto o Senhor vem tomar sobre si os pecados do mundo. Assim, o Senhor será batizado pelo Servo, o Deus santo feito homem será batizado por uma simples criatura! Ante a reação de João, que não queria batizá-lo, Jesus dá uma resposta impressionante: é necessário que se cumpra a justiça, isto é, o plano do Pai. E o plano do Pai é que o Filho assuma a condição de Servo e se identifique, sem pecado, com a humanidade pecadora. O Filho faz-se obediente ao desígnio do seu Deus e Pai...

3. Ao ser batizado, os céus se abrem! Desde a Encarnação os céus se abriram para nós: o Filho eterno veio a este mundo, Deus habitou entre nós, e onde Deus habita aí está o céu. Por isso, na Noite santa do Natal, os anjos foram vistos na terra e os homens cantaram os cânticos dos céus: "Glória a Deus nas alturas!" O que isto significa? Que em Cristo, com a sua bendita Manifestação, começa ser destruído o abismo que nos separava de Deus e nos fechava o céu. Agora, no Batismo do Senhor, pela obediência humilde de Jesus, os céus se abrem e revelam o segredo mais íntimo do Deus santo de Israel: o Pai unge o Filho feito homem com o seu Espírito de Amor. Aparece, assim, a própria riqueza trinitária do único Deus: o Pai, Aquele que unge; o Filho, o Messias-Ungido; o Espírito Santo, a própria Unção! Assim, Jesus é, agora, a pleno direito, o Ungido, o Messias, o Cristo prometido a Israel.

4. Esta unção de Jesus é salvífica, é para nossa salvação. O Espírito aparece na forma corporal de pomba para evocar o final do Dilúvio. Naquela ocasião, Deus purificara o mundo do pecado, lavando-o com a água. Dali saiu uma nova humanidade. E Noé, quando as águas baixaram, soltou uma pomba, que retornou à arca trazendo no bico um ramo de oliveira, da qual se faz o óleo da unção. Aquela pomba que paira sobre Jesus evoca esse óleo, que o símbolo do Espírito. Jesus nosso Senhor é o princípio de uma nova humanidade, que por ele será redimida e sai das águas - prefigurando aqui as águas do Batismo, águas que são símbolo do Espírito Santo. Ao sair das águas e ser ungido, nosso Salvador e Cabeça já prefigura em si aquilo que todos nós, membros do seu Corpo, experimentaremos: sairemos das águas do santo Batismo, renovados pelo seu Espírito Santo, membros de uma nova humanidade, recriada pela Páscoa do Salvador.

5. Neste sentido, a Festa do Batismo de Jesus tem também um aspecto pascal: Jesus que sai das águas ungido pelo Espírito do Pai, já prefigura seu mergulho nas águas da morte e sua saída na Ressurreição, graças ao Pai, que derramou sobre ele o Espírito Santo, Espírito que o Senhor ressuscitado derramou sobre nós!

6. Ao ungir seu Filho com o Espírito o Pai o apresenta a Israel: "Este é o meu Filho amado, no qual coloco todo o meu Bemquerer". O bemquerer, o amor do Pai é o Espírito Santo. Mas, observe: esta frase foi tirada do primeiro dos quatro cânticos do Servo Sofredor, que começa assim: "Eis o meu Servo que eu sustenho, o meu Eleito, em quem tenho prazer. Pus sobre ele o meu Espírito" (Is 42,1). Aqui o Pai revela que Jesus, o Ungido, o Messias ("pus sobre ele o meu Espírito", isto é, ungi-o, fi-lo Messias), é seu Filho. Note que, ao invés de "servo" o Pai diz: é o meu "Filho", o Filho Amado, no qual o Pai coloca todo o seu Amor, todo o seu Espírito Santo de Amor. E, no entanto, esse Filho amado vai realizar sua missão como Servo, Servo sofredor, pois o Pai usa a frase do primeiro dos quatro cânticos do Servo. É como se aqui o Pai apresentasse ao próprio Filho o itinerário que ele deve percorrer, o modo como ele deve desempenhar sua missão: a de um Messias manso, pobre, obediente, humilde, que enfrentará o fracasso, o abandono e a morte! Aqui se manifesta de modo claro e misterioso o destino que o Senhor Jesus vai abraçar por obediência ao Pai: ele se fez obediente até a morte e morte de cruz!

São estes alguns dos aspectos do Mistério que a Igreja hoje celebra. Se unirmos tudo isto às outras festas do Tempo do Natal, teremos diante dos olhos e do coração a impressionante riqueza deste Tempo litúrgico. A esta Manifestação, a Igreja sempre uniu o primeiro milagre de Jesus em Caná, no qual ele transforma a água da purificação dos judeus, própria da Antiga Aliança, no vinho novo, símbolo do Espírito da Nova Aliança. Assim, ele manifestou a sua glória e seus discípulos creram nele. Somente com todo este mistério diante dos olhos podemos compreender, saborear e admirar aquela estupenda antífona da nossa Liturgia latina nas Laudes de Domingo passado, Epifania do Senhor: "Hoje, a Igreja se uniu ao seu celeste Esposo, porque Cristo lavou no Jordão o pecado; para as núpcias reais correm os Magos com presentes; e os convivas se alegram com a água feita vinho. Aleluia". Misturam-se aqui, deliciosamente, os vários aspectos da Manifestação do Senhor: (a) a Manifestação aos Magos, representantes de todos os povos da terra, atraídos pela luz da estrela do Menino, que veio para ser luz para iluminar todas as nações e glória de Israel; (b) a Manifestação do Senhor como Messias de Israel, no seu batismo, às margens do Jordão, quando o Pai o unge com o Espírito Santo e o apresenta: "Este é o meu Filho amado!" O batismo de Jesus recorda primeiramente sua paixão: ele mergulha e se ergue da água, como mergulhará na morte e erguer-se-á na ressurreição, pleno do Espírito Santo. Seu batismo é fundamento e primícias do nosso batismo; seu batismo é, então, primícias e figura da redenção do pecado que o Santo Messias trouxe a toda a humanidade; (c) a Manifestação da glória de Cristo nas núpcias de Caná da Galiléia. As núpcias simbolizam aquelas do Cordeiro com a humanidade, desposada por Cristo na sua Igreja ao assumir nossa natureza humana: Cristo é o Esposo e a Mulher, símbolo da Igreja nova humanidade e nova Sião, é a Virgem Maria. O vinho novo e bom é símbolo do Espírito, lei da Nova Aliança, que substitui a água da Antiga Aliança judaica. Por isso o evangelho termina esta narrativa afirmando que "Jesus manifestou a sua glória e seus discípulos creram nele".


No seu batismo, o Senhor,
princípio da nova humanidade,
purifica as águas para o nosso Batismo
e destrói o poder diabólico
(note o demônio no fundo do rio, com aspecto de um velho).
 



Escrito por Pe. Henrique às 02h34
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O mistério da liberdade

Caro Internauta, continuarei a apresentar extratos do Cardeal Jean Daniélou. No último post que apresentei, ele havia mostrado como a mística do marxismo, com sua esperança intramundana, é uma pobre caricatura da mística judeu-cristã. Agora, o Cardeal analisa o desespero existencialista: 

Ao mesmo tempo - e aí está o paradoxo - temos no pensamento contemporâneo uma corrente absolutamente inversa para a qual o mundo é essencialmente absurdo e diante disso só há uma atitude possível, uma espécie de humanismo desesperado que consiste em nada esperar, uma vez que toda esperança é ilusão, mas em procurar apenas defender-se e salvar um mínimo de felicidade humana. 

Evidentemente é esse um pensamento que se justifica em vários pontos de vista ante a aparência do mundo em que vivemos, pois, é certo que ele se encontra em situação absurda, envolvido em um conjunto de contradições e complexidades injustificáveis. Compreende-se muito bem que alguns espíritos encontrem numa filosofia do absurdo e do desespero a expressão dessa felicidade. 

Encontramo-nos ainda aqui em presença de uma idéia cristã degenerada, do pessimismo cristão de Pascal e de Kierkegaard, isto é, da tomada de consciência da desordem no mundo. Para os cristãos, essa desordem não constitui a própria natureza das coisas, mas é causada pelo homem que usa de sua liberdade para introduzir o mal na obra harmoniosa de Deus. 

A crítica dos existencialistas aos marxistas é muito eficaz, pois mostra que o otimismo comunista é ingênuo, porque desconhece totalmente essa realidade fundamental que é o poder terrível da liberdade do homem. Os elementos materiais não bastam para determinar o destino humano. A liberdade do homem é independente da causalidade material; ela constitui sua grandeza, tem algo de divino e, por conseguinte, dá-lhes essa capacidade terrível de fazer o mal e o bem. Ela constitui um elemento imprevisível, o único precisamente que não entra na perspectiva do comunismo, masque basta para deixá-lo abalado (Observação minha: É por isso mesmo que onde o marxismo foi implantado a liberdade foi perseguida e assassinada. Nunca será possível um regime inspirado no marxismo que respeite realmente as liberdades individuais. Nem marxismo nem quaisquer totalitarismos de direita ou de esquerda admitirão que o homem exerça aquilo que é sua mais profunda característica e sua maior expressão de dignidade: a liberdade. O próprio Deus a criou e a respeita: prefere deixar que o homem o crucifique a crucificar a liberdade humana!). 

Ora, a respeito dessa liberdade, sabemos que não há senão uma coisa a considerar: uma outra liberdade superior, à qual aquela não pode recusar-se sem renegar-se (Observação minha: O raciocínio é o seguinte: O homem, que não se criou a si mesmo, não se projetou, não se fez, é consciente e livre. Por quem e por que foi criado com uma consciência e uma liberdade? Não será por Alguém também consciente de uma Consciência infinita e livre de uma Liberdade infinita? Será que esse Criador não criou o homem precisamente para, em consciência e liberdade, fazer da vida um diálogo de amor com Ele, responder-lhe "sim" em consciência e liberdade? Se se nega a existência desse Criador, a consciência e a liberdade humanas para que servem realmente? Até que ponto têm sentido? Com quem estão em diálogo? Em quais valores perenes se sustentam? Não há como correr: negar Deus é negar mesmo o homem!).



Escrito por Pe. Henrique às 18h22
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A pessoa: entre o natural e o sobrenatural

Caro Internauta, eis um pouco mais da Instrução Dignitas Personae:

O respeito de tal dignidade é devido a cada ser humano, porque este traz impressos em si, de maneira indelével, a própria dignidade e o próprio valor. A origem da vida humana, por outro lado, tem o seu contexto autêntico no matrimônio e na família, onde é gerada através de um ato que exprime o amor recíproco entre o homem e a mulher. Uma procriação verdadeiramente responsável em relação ao nascituro «deve ser o fruto do matrimônio».

O matrimónio, presente em todos os tempos e em todas as culturas, «foi uma instituição sapiente do Criador, para realizar na humanidade o seu desígnio de amor. (Observação minha: Uma cultura que não possua o matrimônio monogâmico, não está em correspondência com o plano de Deus e, para acolher plenamente o Cristo, deve converter-se neste aspecto. Cultura alguma é isenta de imperfeições e pecados. A norma e critério do humano é Cristo). Mediante a doação pessoal recíproca, que lhes é própria e exclusiva, os esposos tendem para a comunhão dos seus seres, em vista de um aperfeiçoamento mútuo pessoal, para colaborarem com Deus na geração e educação de novas vidas». Na fecundidade do amor conjugal, o homem e a mulher «tornam evidente que, na origem da sua vida esponsal, existe um "sim" genuíno, que é pronunciado e realmente vivido na reciprocidade, permanecendo sempre aberto à vida... A lei natural, que está na base do reconhecimento da verdadeira igualdade entre as pessoas e os povos, merece ser reconhecida como a fonte, onde inspirar também a relação entre os esposos na sua responsabilidade de gerar novos filhos. A transmissão da vida está inscrita na natureza e as suas leis permanecem como norma não escrita, a que todos se devem referir» (Observação minha: O que a Igreja entende dizer com isto? Primeiro que o lugar para a procriação é o ato sexual normal e natural, entre um homem e uma mulher unidos pelo matrimônio. Em segundo lugar, que tal verdade pode ser apreendida pela própria razão humana ao apreciar a ordem natural das coisas e, finalmente, que o ato sexual tem como objetivo não somente a procriação, mas a celebração do amor do casal e o aperfeiçoamento e crescimento nesse amor).

É convicção da Igreja que tudo o que é humano não só é acolhido e respeitado pela , mas por esta é também purificado, elevado e aperfeiçoado. Deus, depois de ter criado o homem à sua imagem e semelhança (cf. Gn 1,26), qualificou a sua criatura como «muito boa» (Gn 1,31) para depois assumi-la no Filho (cf. Jo 1,14). O Filho de Deus, no mistério da Encarnação, confirmou a dignidade do corpo e da alma, constitutivos do ser humano. Cristo não desdenhou a corporeidade humana, mas revelou plenamente o seu significado e valor: «Na realidade, o mistério do homem só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente».

Tornando-se um de nós, o Filho faz com que possamos tornar-nos «filhos de Deus» (Jo 1,12), «participantes da natureza divina» (2Pd 1,4). Esta nova dimensão não está em contraste com a dignidade da criatura que todos os homens reconhecem como racional, mas eleva-a a um ulterior horizonte de vida, que é a própria vida de Deus, e permite refletir mais adequadamente sobre a vida humana e sobre os atos que a constituem.

Pelo simples fato de existir, cada ser humano deve ser plenamente respeitado. Deve-se excluir a introdução de critérios de discriminação quanto à dignidade, com base no desenvolvimento biológico, psíquico, cultural ou no estado de saúde. No homem, criado à imagem e semelhança de Deus, reflete-se, em cada fase da sua existência, «o rosto do seu Filho Unigênito... Este amor ilimitado e quase incompreensível de Deus pelo homem revela até que ponto a pessoa humana seja digna de ser amada por si mesma, independentemente de qualquer outra consideração: inteligência, beleza, saúde, juventude, integridade, etc. Numa palavra, a vida humana é sempre um bem, porque "ela é, no mundo, manifestação de Deus, sinal da sua presença, vestígio da sua glória" (cf. Evangelium vitae, 34)».

Estas duas dimensões da vida, a natural e a sobrenatural, permitem também compreender melhor em que sentido os actos que consentem ao ser humano vir à existência e nos quais o homem e a mulher se doam mutuamente um ao outro, são um reflexo do amor trinitário. «Deus, que é amor e vida, inscreveu no homem e na mulher a vocação a uma participação especial no seu mistério de comunhão pessoal e na sua obra de Criador e Pai».

O matrimônio cristão «radica-se na complementaridade natural que existe entre o homem e a mulher, e alimenta-se mediante a vontade pessoal dos esposos de partilhar, num projeto de vida integral, o que têm e o que são. Por isso, tal comunhão é fruto e sinal de uma exigência profundamente humana. Porém, em Cristo, Deus assume esta exigência humana, confirma-a, purifica-a e eleva-a, conduzindo-a à perfeição com o sacramento do matrimônio: o Espírito Santo infundido na celebração sacramental oferece aos esposos cristãos o dom de uma comunidade nova, de amor, que é a imagem viva e real daquela unidade singularíssima, que torna a Igreja o indivisível Corpo Místico do Senhor».

A Igreja, ao pronunciar-se sobre a validade ética de alguns resultados das recentes investigações da medicina, relativas ao homem e às suas origens, não intervém no âmbito próprio da ciência médica como tal, mas chama todos os interessados à responsabilidade ética e social do seu operar. Recorda-lhes que o valor ético da ciência biomédica mede-se com a referência, quer ao respeito incondicionado devido a cada ser humano, em todos os momentos da sua existência, quer à tutela da especificidade dos actos pessoais que transmitem a vida. A intervenção do Magistério situa-se na sua missão de promover a formação das consciências, ensinando com autenticidade a verdade que é Cristo e, ao mesmo tempo, declarando e confirmando com autoridade os princípios da ordem moral que emanam da própria natureza humana.



Escrito por Pe. Henrique às 12h06
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Tu és verdadeiramente Mãe de Deus!

Amanhã, Oitava do Santo Natal, a Igreja celebra a Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus. É uma festa antiga, na qual os cristãos saúdam a Virgem Santíssima porque através dela nos veio o Salvador do mundo. No Oriente cristão, a Igreja faz essa saudação no dia 26 de dezembro, pois os orientais têm o costume de congratular-se com as mulheres que dão à luz logo no dia seguinte ao parto, cumprimentando-as pelo dom da maternidade. Daí o belo costume: no dia seguinte ao Natal, os cristãos congratulam-se com a Mãe de Deus pelo Filho que ela gerou e deu à luz. Jesus, o Nascido por nós, é Deus verdadeiro e perfeito; por isso a Virgem pode ser chamada verdadeiramente de Mãe de Deus.

Mas, esta festa e este título, mais que falar de Maria, falam do Filho dela nascido. Jesus é Deus, é uma Pessoa divina, a segunda da Trindade: Deus como o Pai e Deus como o Espírito Santo. Nossa fé nos ensina que há um só Deus, uma só natureza divina, infinita, perfeita e eterna. Ora, esta natureza divina é a única natureza do Pai e do Filho e do Espírito Santo, de modo que o Pai é verdadeiro e único Deus (pois só há uma natureza divina), o Filho é verdadeiro e único Deus e o Espírito Santo, igualmente, é verdadeiro e único Deus. Não são três naturezas iguais, mas uma só natureza que é do Pai e do Filho e do Espírito Santo!

Pois bem, a segunda Pessoa da Trindade santa, sem deixar de ser Deus, sem deixar sua natureza divina, assumiu de verdade a natureza humana, igual a nossa, em Maria Virgem. Então, Jesus é uma Pessoa divina, a segunda da Trindade, que sempre possuiu a natureza divina e, agora, por nós e para nossa salvação, assumiu também uma natureza humana, limitada e frágil como a nossa. E essa natureza humana ele a recebeu de sua mãe, a Virgem Maria. O Filho eterno não somente se encarnou em Maria, mas "de Maria", isto é, recebeu dela sua carga genética, suas características humanas, a ponto de Santo Agostinho afirmar com ousadia: "A carne de Cristo é carne d e Maria".

Mas, concretamente, que é uma pessoa? Que é uma natureza? Pessoa, no sentido teológico, é o "eu" que age, que pensa, que sente, que está por baixo de todas as ações, vivências e escolhas da vida. Quem tem sede? Quem ama? Quem sorriu? Quem morreu? Foi Fulano. Este Fulano é a pessoa, o sujeito de todas as vivências e ações. Pois bem, Jesus é uma Pessoa divina - a segunda da Trindade: na sua vida entre nós, tudo quanto ele fez era ação da Pessoa divina que ele é. Assim: quem curou o cego? A segunda Pessoa da Trindade. Quem dormiu no barco no Mar da Galiléia? A segunda Pessoa da Trindade. Quem nasceu da Virgem? A segunda Pessoa da Trindade. Quem sofreu e morreu na cruz? A segunda Pessoa da Trindade! Mas como é possível uma Pessoa da Trindade, uma Pessoa divina, experimentar tudo isso?

Aqui vem o significado de natureza. Natureza é o modo concreto como a pessoa vive, age, sente, pensa, decide, se exprime. Eu sou uma pessoa humana que vivo concretamente numa natureza humana: vivo a ajo como homem, de acordo com a natureza humana. Assim também Jesus: sua Pessoa divina viveu e agiu entre nós de modo humano, vivendo e sentindo tudo que um ser humano vive e sente! Recorde que a natureza humana é composta de corpo e alma racional. Assim, Jesus, como homem, tem um corpo e uma alma humana. Dizer alma é dizer consciência, vontade, conhecimento liberdade, afeto... Tudo isto Jesus tem igual a nós: conhecia como homem, sentia como homem, sofria como homem, tinha limitações naturais de homem, tinha vontade de homem e sentimentos humanos. Foi igual a nós em tudo, menos no pecado que não é humano, mas desumano! Então, voltando para as perguntas do parágrafo anterior: Como pode a segunda Pessoa da Trindade dormir? Como homem! Como pode sofrer e morrer? Como homem, na sua natureza humana! E a sua natureza divina? É a do Pai e do Espírito Santo, que não pode sofrer nada disso. Na sua natureza divina ele enche o céu e na sua natureza humana dorme no presépio; na sua natureza divina sustenta e governa o céu e a terra e na sua natureza humana é alimentado por Maria e guardado por José! Eis que mistério tão grande.

Ora, tudo isto começou no seio da Virgem: ela gerou de verdade o Filho eterno como homem. Jesus nunca diria: Maria é mãe da minha natureza humana. Ele diria: Maria é minha mãe - mãe de minha Pessoa (divina) na natureza humana. Exatamente para deixar isso claro é que a Igreja desde os primórdios chama Maria de Mãe de Deus, isto é Mãe de Deus Filho feito homem. Professar que Maria é verdadeiramente Mãe de Deus é proclamar que no seu ventre bendito, Deus-Filho humanizou-se, isto é, veio realmente fazer-se homem e viver tudo que nós humanos vivendo. Fazendo-se homem, trouxe-nos a sua vida divina; abaixando-se, nos ergueu; tornando-se servo por nós, deu-nos a realeza divina; tomando a nossa pobre condição, enriqueceu-nos com a sua divindade. E tudo isto começou no puríssimo seio da bendita Virgem Maria! É este mistério que a Igreja, admirada e agradecida, contempla e proclama e celebra na sagrada Liturgia.

"Verdadeiramente é digno bendizer-te, ó Mãe de Deus! Bem-aventurada imaculada para sempre, Mãe do nosso Deus! Mais venerável que os Querubins e incomparavelmente mais gloriosa que os Serafins! Tu, que conservando tua integridade, deste à luz o Verbo de Deus! Tu és na verdade Mãe de Deus! Nós te glorificamos!"




Escrito por Pe. Henrique às 12h32
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Ainda a Instrução Dignitas Personae

Nos últimos decénios, as ciências médicas têm feito consideráveis progressos no conhecimento da vida humana nas fases iniciais da sua existência. Permitiram conhecer melhor as estruturas biológicas do homem e o processo da sua geração. Tais progressos são certamente positivos e merecem apoio, quando servem para ultrapassar ou corrigir patologias e ajudam a restabelecer o percurso normal dos processos generativos. São, porém, negativos e, por isso, não se podem aceitar, quando comportam a supressão de seres humanos ou usam meios que lesam a dignidade da pessoa ou então são adotados para finalidades contrárias ao bem integral do homem.

O corpo de um ser humano, desde as primeiras fases da sua existência, nunca pode ser reduzido ao conjunto das suas células. O corpo embrionário desenvolve-se progressivamente segundo um «programa» bem definido, e com um fim intrínseco próprio, que se manifesta no nascimento de cada criança.

Convém lembrar aqui o critério ético fundamental expresso na Instrução Donum vitae para avaliar todas as questões morais relativas às intervenções sobre o embrião humano: «O fruto da geração humana, desde o primeiro momento da sua existência, isto é, a partir da constituição do zigoto, exige o respeito incondicional que é moralmente devido ao ser humano na sua totalidade corporal e espiritual. O ser humano deve ser respeitado e tratado como pessoa desde a sua concepção e, por isso, desde esse mesmo momento devem ser-lhe reconhecidos os direitos da pessoa, entre os quais e antes de tudo, o direito inviolável de cada ser humano inocente à vida».

 Semelhante afirmação de carácter ético, reconhecida como verdadeira e conforme à lei moral natural pela própria razão, deveria servir de fundamento a todo o ordenamento jurídico.

Embora a presença de uma alma espiritual não possa ser detectada pela observação de qualquer dado experimental, são as próprias conclusões da ciência sobre o embrião humano a oferecer uma «indicação valiosa para discernir racionalmente uma presença pessoal desde esse primeiro aparecer de uma vida humana: como um indivíduo humano não seria pessoa humana?». A realidade do ser humano, com efeito, ao longo de toda a sua vida, antes e depois do nascimento, não permite afirmar nem uma mudança de natureza nem uma gradualidade de valor moral, porque possui uma plena qualificação antropológica e ética. O embrião humano, por isso, possui desde o início a dignidade própria da pessoa.

O respeito de tal dignidade é devido a cada ser humano, porque este traz impressos em si, de maneira indelével, a própria dignidade e o próprio valor. A origem da vida humana, por outro lado, tem o seu contexto autêntico no matrimónio e na família, onde é gerada através de um acto que exprime o amor recíproco entre o homem e a mulher. Uma procriação verdadeiramente responsável em relação ao nascituro «deve ser o fruto do matrimônio».

Mediante a doação pessoal recíproca, que lhes é própria e exclusiva, os esposos tendem para a comunhão dos seus seres, em vista de um aperfeiçoamento mútuo pessoal, para colaborarem com Deus na geração e educação de novas vidas». Na fecundidade do amor conjugal, o homem e a mulher «tornam evidente que, na origem da sua vida esponsal, existe um "sim" genuíno, que é pronunciado e realmente vivido na reciprocidade, permanecendo sempre aberto à vida... A lei natural, que está na base do reconhecimento da verdadeira igualdade entre as pessoas e os povos, merece ser reconhecida como a fonte, onde inspirar também a relação entre os esposos na sua responsabilidade de gerar novos filhos. A transmissão da vida está inscrita na natureza e as suas leis permanecem como norma não escrita, a que todos se devem referir».



Escrito por Pe. Henrique às 01h25
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A deturpação da esperança cristã em vã utopia

Caro Leitor meu, vai aqui um pouco mais de Jean Daniélou. Recomendo que releia o post anterior para retomar o fio da meada e compreender o que o Cardeal está querendo dizer...

Da mesma forma, no Antigo Testamento, face à fidelidade de Deus, encontramos essa segunda realidade que é a infidelidade do povo. Se de um lado nada pode impedir a realização do plano de Deus, do outro encontramos a liberdade humana terrivelmente capaz de chocar-se com esse plano, não impedindo-o de existir, mas de produzir seus frutos. (Observação minha: No post anterior, o Autor mostrava como já antes do cristianismo Deus foi traçando a história, imprimindo nela um fio condutor, de modo que o cristianismo é uma novidade, mas também uma lenta maturação. Agora, o Autor chama a atenção para o outro aspecto: o homem é capaz de dizer "não" ao plano de Deus. Este "não", ainda que não danifique o plano de Deus em nível global, prejudica a humanidade, podendo até mesmo nos mandar para a danação eterna do inferno).

É esse aspecto que apresenta a história de Israel em que Deus convida seu povo a servi-lo e este, perpetuamente, por suas infidelidades, subtrai-se às graças de Deus. Citam-se passagens admiráveis dos profetas lembrando ao povo suas infidelidades e exortando-o a tornar-se melhor. Encontramos aí, no próprio âmago da Bíblia, este duplo aspecto de continuidade histórica e oposição trágica.

É dessa oposição bíblica que o pensamento contemporâneo nos oferece um aspecto degenerado, mostrando-nos ao mesmo tempo uma perspectiva otimista e histórica e outra desesperada e dramática. Temos, de um lado, imensa fé no progresso material capaz de grandes movimentos como o do comunismo. No fundo, o pensamento comunista, além de todas as questões políticas exteriores, tal como o encontramos na filosofia de Marx que constitui sua base, é a idéia de que, no correr da história, há um progresso que se realiza irrevogavelmente. Pode haver crises, revoluções. Tudo isso se perde nesse vir a ser através do qual, em centenas e milhares de anos, realiza-se o progresso. Por conseguinte, havemos de ter fé na história e confiança no progresso; embora não cheguemos a vê-lo, o importante é que ele se realize. (Observação minha: O Autor viveu no auge da Guerra Fria e da sedução do marxismo na Europa. Ele tem razão na análise que faz. Nunca esqueçamos que o esquema marxista é uma cópia mal feita da visão cristã da história: paraíso original = comunismo primitivo; pecado original = nascimento da propriedade privada pela apropriação do excedente de coleta; messias que toma o pecado do mundo = classe proletária que com seu sangue é oprimida e fará a revolução, libertando-se e libertando a burguesia; glória do céu = o comunismo final. Marx não fez mais que secularizar e dessacralizar a visão cristã da história, criando a aberração de uma história que em si mesmo teria uma plenitude e um sentido. Com toda certeza um tal projeto estava destinado ao total fracasso...)

Presenciamos aqui a decadência de uma grande idéia cristã: é a fé, apoiada na promessa de Deus, em uma cidade bem-aventurada. Essa fé no comunismo desvirtua-se com a esperança de uma cidade temporal perfeita, resultante de esforços humanos.

Crer em um sentido da história, crer profundamente que, através de todas as revoluções, de todos os dramas que atravessamos, há algo que amadurece, que se realiza, que tende para o bem, é possuir uma visão essencialmente cristã. É um dever para nós hoje, no meio de todos os desesperos e decepções aparentes, manter esse otimismo, mantê-lo tanto ou mais que os outros porque sabemos bem que através de todos os dramas a cidade de Deus se edifica misteriosamente, por vias que não são as nossas, mas com uma certeza inflexível, porque Deus é fiel à sua promessa. (Observação minha: O Autor utiliza a palavra otimismo; seria melhor usar esperança, que consiste em esperar Deus de Deus, esperar porque Deus prometeu. Há ainda uma coisa importante: se é verdade que há um sentido na história e que caminhamos para um ponto Ômega, também é verdade que o pecado é uma realidade forte e presente efetivamente no coração do homem e do mundo. O centro da nossa fé é o mistério da cruz do Senhor, que não nos deixa cair num otimismo ingênuo de pensar que esse mundo caminha placidamente para o Senhor. Hoje, mais que nunca, podemos tocar o quanto o pecado é presente, potente e maléfico). Sabemos que o Verbo de Deus atua no mundo realizando um plano irrevogável e que um dia todas as nações se reunirão no reino do Pai.



Escrito por Pe. Henrique às 22h15
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A dignidade do embrião

Mais um trechinho da Instrução Dignitas personae:

Nos últimos decênios, as ciências médicas têm feito consideráveis progressos no conhecimento da vida humana nas fases iniciais da sua existência. Permitiram conhecer melhor as estruturas biológicas do homem e o processo da sua geração. Tais progressos são certamente positivos e merecem apoio, quando servem para ultrapassar ou corrigir patologias e ajudam a restabelecer o percurso normal dos processos generativos. São, porém, negativos e, por isso, não se podem aceitar, quando comportam a supressão de seres humanos ou usam meios que lesam a dignidade da pessoa ou então são adoptados para finalidades contrárias ao bem integral do homem. 

O corpo de um ser humano, desde as primeiras fases da sua existência, nunca pode ser reduzido ao conjunto das suas células. O corpo embrionário desenvolve-se progressivamente segundo um «programa» bem definido, e com um fim intrínseco próprio, que se manifesta no nascimento de cada criança.

Convém lembrar aqui o critério ético fundamental expresso na Instrução Donum vitae para avaliar todas as questões morais relativas às intervenções sobre o embrião humano: «O fruto da geração humana, desde o primeiro momento da sua existência, isto é, a partir da constituição do zigoto, exige o respeito incondicional que é moralmente devido ao ser humano na sua totalidade corporal e espiritual. O ser humano deve ser respeitado e tratado como pessoa desde a sua concepção e, por isso, desde esse mesmo momento devem ser-lhe reconhecidos os direitos da pessoa, entre os quais e antes de tudo, o direito inviolável de cada ser humano inocente à vida».

Semelhante afirmação de caráter ético, reconhecida como verdadeira e conforme à lei moral natural pela própria razão, deveria servir de fundamento a todo o ordenamento jurídico.

Embora a presença de uma alma espiritual não possa ser detectada pela observação de qualquer dado experimental, são as próprias conclusões da ciência sobre o embrião humano a oferecer uma «indicação valiosa para discernir racionalmente uma presença pessoal desde esse primeiro aparecer de uma vida humana: como um indivíduo humano não seria pessoa humana?». A realidade do ser humano, com efeito, ao longo de toda a sua vida, antes e depois do nascimento, não permite afirmar nem uma mudança de natureza nem uma gradualidade de valor moral, porque possui uma plena qualificação antropológica e ética. O embrião humano, por isso, possui desde o início a dignidade própria da pessoa.




Escrito por Pe. Henrique às 20h09
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Dignidade de pessoa: da concepção è morte

Caro Internauta, veio à luz uma nova instrução - Dignitas Personae (Dignidade da Pessoa) - da Congregação para a Doutrina da Fé sobre temas ligados à vida humana. São sérias questões de bioética. Colocarei aqui alguns trechos mais significativos... Uma coisa é certa: vão meter a ripa na Igreja! Procure ler, compreender, rezar e defender, porque são princípios decorrentes da nossa fé em Cristo Jesus!

A todo o ser humano, desde a concepção até à morte natural, deve reconhecer-se a dignidade de pessoa. Este princípio fundamental, que exprime um grande «sim» à vida humana, deve ser colocado no centro da reflexão ética sobre a investigação biomédica, que tem uma importância cada vez maior no mundo de hoje.

No variegado panorama filosófico e científico atual, é possível constatar uma ampla e qualificada presença de cientistas e filósofos que, no espírito do juramento de Hipócrates, concebem a ciência médica como um serviço à fragilidade do homem para a cura das doenças, o alívio do sofrimento, e para alargar com equidade a toda a humanidade a necessária assistência. Não faltam, porém, representantes da filosofia e da ciência que encaram o crescente progresso das tecnologias biomédicas numa perspectiva substancialmente eugenética.

A Igreja católica, ao propor princípios e avaliações morais para a investigação biomédica sobre a vida humana, recorre à luz da razão e da fé, contribuindo para a elaboração de uma visão integral do homem e da sua vocação, capaz de acolher tudo o que de bom emerge das obras dos homens e das várias tradições culturais e religiosas, que não raras vezes mostram uma grande reverência pela vida.

O Magistério pretende dar uma palavra de encorajamento e de confiança em favor de uma perspectiva cultural que vê a ciência como precioso serviço ao bem integral da vida e da dignidade de cada ser humano. A Igreja, portanto, olha com esperança para a investigação científica, esperando que muitos cristãos se dediquem ao progresso da biomedicina e testemunhem a própria fé nesse âmbito. Espera igualmente que os resultados dessa investigação sejam postos à disposição também das áreas pobres e atingidas por doenças, de modo a enfrentar as necessidades mais urgentes e dramáticas do ponto de vista humanitário.

Por fim, a Igreja pretende estar presente ao lado de cada pessoa que sofre no corpo e no espírito, para lhe dar não só um conforto, mas a luz e a esperança. Estas dão sentido também aos momentos da doença e à experiência da morte, que pertencem efectivamente à vida do homem e marcam a sua história, abrindo-a ao mistério da Ressurreição. O olhar da Igreja está, de fato, repleto de confiança, porque «a vida vencerá: esta é para nós uma esperança segura. Sim, a vida vencerá, porque do lado da vida estão a verdade, o bem, a alegria e o verdadeiro progresso. Do lado da vida está Deus, que ama a vida e a doa em abundância».


O Cardeal Levada,
Prefeito da Congregação
para a Doutrina da Fé



Escrito por Pe. Henrique às 16h31
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A fidelidade de Deus

Eis, caro Internauta, mais um pouco de Daniélou, continuando o post anterior:

Contra esse plano [de Deus] os homens nada podem absolutamente. A liberdade humana não entra aqui em jogo, uma vez que a execução desse plano independe da fidelidade do homem. Se houvesse entre Deus e nós um contrato e se um dos dois contratantes ficasse livre de suas obrigações na medida em que o outro não se desobrigasse, a aliança de há muito estaria rompida. 

Como o homem não realiza suas obrigações, Deus ficaria desligado de sua palavra. Ora, diz-nos São Paulo, o que nos une a Deus não é um contrato bilateral, mas uma promessa unilateral, de Deus, que não está à mercê de nossa infidelidades a não ser na medida em que essas infidelidades nos impedem de desfrutar a promessa, sem que, contudo, ela possa ser anulada. 

Podemos colocar-nos na impossibilidade na medida em que estamos no pecado, mas a promessa é irrevogável, tão irrevogável quanto a ordem natural em que Deus se empenhou. É nesta perspectiva que se justifica o otimismo fundamental na concepção cristã.



Escrito por Pe. Henrique às 11h55
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A fidelidade de Deus para com a criação

 Eis, caro Internauta, mais de Daniélou: 

Que se entende por essa aliança, esse testamento? É a tríplice promessa feita por Deus a Abraão: primeiro, de introduzir seu povo na Terra de Canaã; em segundo lugar de que nasceria de sua raça o Salvador do mundo; e, finalmente, de que todas as nações se reuniriam em torno de sua descendência. 

Essa aliança, entretanto, não é a primeira. Temos na Bíblia uma passagem extremamente curiosa pelas perspectivas que nos abre sobre o pensamento bíblico: é a narração do dilúvio. Nessa narração vemos Deus dizer a Noé, após o dilúvio, que doravante fará ele uma aliança; promete-lhe não perturbar mais a ordem natural e dá-lhe como sinal o arco-íris: vendo no céu esse sinal, Deus lembrar-se-á de sua aliança e fará cessar a chuva. (Observação minha: A aliança de Deus com Noé não é ainda a aliança com Israel, não está ainda no interior da Tora. A importância dessa aliança é que ela se dá com toda a humanidade e até mesmo com toda a criação: Deus promete nunca mais destruir a terra com um dilúvio. É óbvio, mas convém recordar: Noé não era israelita - estes ainda sequer existiam. Noé representa toda a humanidade).

Quando, mais tarde, os judeus quiserem relembrar a Deus sua aliança, isto é, as promessas feitas a seu povo, começarão sempre assim: "Tu que conservas fielmente a ordem no mundo e, por conseguinte, guardas fidelidade à promessa feita a Noé, sê, pois, fiel à promessa feita a teu povo e a Abraão". (Observação minha: Isto não nos deve fazer pensar que os israelitas deduziram a fidelidade e o poder de Deus da sua ação na criação. Israel experimentou o seu Deus como potente e fidelíssimo primeiro e principalmente na sua história: foi ele o Deus que o arrancou do Egito e o conduziu pelo deserto, dando-lhe a terra. É esta fidelidade potente de Deus que Israel aprende a contemplar também na criação, como expressão do amor de Deus: o Deus que o salvou é o Deus de toda a terra e de toda a humanidade)

Quer isto dizer que, sendo Deus fiel na ordem natural, com maior razão o é ao plano estabelecido por ele na ordem da graça que se realizará irrevogavelmente e que nada pode modificar. 

Era esse o pensamento dos judeus: se o sol, todos os dias, se levanta, não é por um determinismo físico, é por causa da fidelidade de Deus, porque nada já de impessoal na criação. (Observação minha: Eis aqui uma idéia estupenda, profunda e absolutamente verdadeira. Com o desenvolvimento das ciências pensa-se que tudo pode ser explicado por suas causas naturais e, então, aposenta-se Deus. E, no entanto, as causas segundas, causas naturais, nada mais são que expressão da ordem sapiente que Deus imprimiu em tudo e da sua constante e fidelíssima presença que tudo dirige com força e suavidade. Pergunta-se a um botânico por que tal orquídea floriu; ele explicará pelas leis naturais, e está correto; pergunta-se a um poeta, e ele dirá que é porque a vida é bela e teima sempre em brotar, em expandir-se; também este tem razão. Se se pergunta a um místico, ele dirá que é porque Deus é amor fiel, sempre presente na sua criação, agindo do mais íntimo dela. É Deus que está presente na flor que se abre, na vida que desabrocha, na criança que sorri, nos olhos que se fecham, no sorriso que se abre. Uma visão que deseje resumir tudo ao natural é uma razão tola, cega, superficial e retardada! No mais íntimo de si, cada ser grita por uma Causa, pelo mistério de um Sentido, de uma Sabedoria que tudo ordena e tudo dirige, com infinito respeito pela sua criatura e pela própria dinâmica que imprimiu na sua criação. Desconhecer isso é perder todo o sentido bíblico da presença providente, atuante e criativa do Deus vivo).

 



Escrito por Pe. Henrique às 16h59
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Ainda a dialética cristão e não-cristão

 Ainda mais de Jean Daniélou, caro Leitor: 

Como chegaram os Padres da Igreja a unir as duas posições - como fazemos ainda hoje - o dois aspectos no mundo não-cristão, isto é, reconhecendo nele valores - o que um Justino, um Clemente ou um Santo Agostinho descobriram na filosofia dos gregos e de Platão - e, ao mesmo tempo, atos, cultos idolátricos, práticas de magia, que são realmente demoníacas e escravizam a humanidade a forças hostis a Deus. Donde, necessariamente a ambigüidade dessa posição. É interessante notar que essas oposições existiram, desde o princípio, no cristianismo e que a antinomia que encontramos hoje já existia então (Observação minha: O Autor é perfeito na sua exposição. Quando hoje a Igreja, com renovada consciência, abre-se para o diálogo para as outras religiões, deve sempre conservar a atitude de fecunda tensão que sempre a norteou no contato com as realidades não-cristãs: de um lado abertura para reconhecer tudo quanto de bom aí possa encontrar-se, individuando nessas realidades as sementes do Verbo, espalhadas em todas as realidades criaturais, já que tudo quanto existe foi criado pelo Filho morto e ressuscitado e para o Filho morto e ressuscitado. Isso nos livra de todo fechamento e de ver o demônio em tudo que esteja fora da sacristia! Outro excesso a evitar-se é aquele de certo diálogo inter-religioso atual, que nivela as religiões todas entre si, considera o cristianismo apenas mais um veículo da revelação - o mais elevado, mas apenas mais um. Tal visão é falsa, errônea e fere no coração a fé cristã. O cristianismo é absolutamente único: não é uma palavra humana sobre Deus e sobre o homem, mas uma palavra de Deus, uma palavra realmente revelada sobre si mesmo, sobre a humanidade e sobre o mundo. Em Cristo Deus nos visitou pessoalmente, pessoalmente fez-se um de nós para nos fazer efetivamente participantes da sua vida divina. Perder de vista esta estupenda realidade é esvaziar totalmente o cristianismo. Esta tensão de que fala o Autor existe desde o Antigo Testamento. Dou-lhe dois exemplos, meu Leitor: Esdras-Neemias têm uma atitude hostil e fechada em relação aos pagãos; Isaías e Jonas têm uma atitude de abertura; há uma corrente em Israel aberta a que se imite a forma monárquica de governo que existia entre os cananeus e há outra, absolutamente contrária a que se imite o modelo dos pagãos...)

Estamos, pois, em presença de uma oposição que é constitutiva da revelação cristã e que representa um dos aspectos essenciais da Bíblia. Há na Bíblia uma noção capital que é sua idéia mãe e que muitas vezes não compreendemos: é a de Aliança. Palavra bastante mal escolhida: vem do hebraico berith, que significa pacto, compromisso; o grego traduz por diatheke: disposição de alguém em favor de um outro; ou então por synthke: contrato bilateral. Sendo essas noções importantes para o que diremos a seguir, convém que fiquem bem claras. O latim, por sua vez, traduz por foedus, isto é, tratado bilateral, ou por testamentum. Chegamos a esta palavra "testamento", que é empregada quando se fala do Antigo e do Novo Testamento e que na realidade é a Antiga ou a Nova Aliança.




Escrito por Pe. Henrique às 17h16
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O negativo nas religiões não-cristãs

 

Caro Leitor, eis mais um trecho do Cardeal Daniélou...

Esse otimismo com que os Padres da Igreja mostraram a continuidade existente entre o cristianismo e as outras religiões é, pois, um primeiro aspecto do seu pensamento. Ao lado disso encontramos neles uma visão aparentemente contraditória e que acentua na questão o seu aspecto dramático. 

O cristianismo não é mais considerado como o desenvolvimento de um plano que se prossegue com uma espécie de certeza infalível e pelo qual Deus realiza progressivamente a obra de unificação de todas as coisas no Cristo, mas como um conflito entre o Cristo e as forças do mal, conflito em que a humanidade é ao mesmo tempo ator e protagonista. 

Encontramos primeiramente no Evangelho e depois no pensamento dos Padres da Igreja a visão do conflito do Cristo com essas potências misteriosas que representam, no pano de fundo da humanidade, todo um mundo infiel a Deus e hostil ao homem. O homem é presa e vítima desse mundo infiel de tal sorte que - para os Santos Padres isso é importante - ele parece mais vítima do que culpado; é antes uma presa das forças más de que o Cristo vem libertá-lo do que réu necessitado de expiação. Essa idéia de expiação aparece também, mas é secundária. Eles têm, sobretudo, em alto grau, o sentimento de tudo o que há de mal em nossa condição humana atual e a tarefa do Cristo é a de nos libertar (Observação minha: Note o caro Leitor que vem acompanhando estes pensamentos belíssimos de Jean Daniélou que, pouco a pouco, vai se desenhando uma leitura bem ampla e multicolorida dos Santos Padres. Somente no final desta série de textos é que teremos uma visão do todo. Duas coisas, no entanto, devemos levar em conta sempre: (1) O pensamento dos Padres, em geral, não é uniforme, sistematizado nem monolítico. Trata-se, antes de idéias motrizes, muitas vezes aparentemente contraditórias, quando na verdade são é muito ricas, exprimindo a complexidade da realidade humana, do mistério da economia divina e da própria multifacetada riqueza da fé cristã; (2) A teologia católica geralmente não se pauta pela alternativa ou-ou, mas pelo e-e: liberdade e graça, criação e salvação, criação boa e criação ferida pelo pecado, homem que traz em si o bem e homem ferido pelo mal. É necessário sempre manter juntos os pólos que aparentemente são inconciliáveis. É assim que se faz boa teologia católica)

Desse ponto de vista as religiões não-cristãs vão aparecer-nos imediatamente em outra perspectiva, não mais como preparações e etapas para o cristianismo, mas como forças hostis que se chocam com ele; a relação do cristianismo com elas vai aparecer-nos não mais como uma continuidade mas como um conflito. A esse respeito lembremo-nos dos textos em que os Padres da Igreja nos mostram o Batismo como sendo essencialmente, para o pagão, a renúncia às pompas, às obras de Satã, que designam propriamente a idolatria, isto é, a religião pagã. Esta é considerada como um culto à Satã a que o novo cristão deve renunciar para entrar no cristianismo (Observação minha: As duas perspectivas estão presentes nos Padres da Igreja e as duas são verdadeiras. O desenvolvimento teológico posterior, sobretudo no século XX, consegue de modo sadio unir as duas perspectivas: as religiões pagãs, em si, são errôneas e, em alguns casos, são más - não sempre, não totalmente, não todas de modo global. No entanto, elas contêm elementos de verdade e tais elementos levam a Cristo e lhe servem de preparação. Que fique claro: a única "religio vera" é o Cristianismo. As religiões não-cristãs, errôneas em si mesmas, contêm elementos de bondade na medida em que concordam com o cristianismo e para ele apontam. Isto vale para todas, sem exceção. Apenas o judaísmo tem um estatuto diverso: não é tanto uma religião não verdadeira, quanto uma religião incompleta, imatura, pois não deu o passo que lhe dá sentido e razão de ser: o acolhimento de Jesus como o Messias de Deus).



Escrito por Pe. Henrique às 22h31
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Entre continuidade e descontinuidade

 Caro Internauta, mais um pouco do Cardeal Jean Daniélou:

 Nessa perspectiva (de preparação para Cristo) percebe-se muito bem a continuidade que há realmente entre o judaísmo e o cristianismo, entre as civilizações pagãs e o cristianismo, enquanto entram em um mesmo plano e são obra de um mesmo Deus (Observação minha: Compreendamos bem: toda a história humana é, em certa medida, história da salvação, porque é história do homem com Deus - ainda que no paganismo esse Deus seja desconhecido e os pagão, como diz São Paulo, adorem aquele aquém não conhecem. A esses pagãos, Deus fala e falava pela voz da consciência, que termina gerando uma cultura e uma religião. Esse tipo de relação com Deus é, digamos, implícito, ou, na linguagem de Karl Rahner, a-temático, isto é, não refletido. Convém não esquecer que a voz da consciência é reflexo da Palavra eterna de Deus que "atormenta"e persegue o homem. E esta Palavra é o próprio Filho eterno. É neste sentido que todas as religiões têm sementes do Verbo, isto é, aspectos que são verdadeiros e positivos, conquanto elas mesmas, como tais, são errôneas e induzem ao modo errado de perceber a Deus e com ele relacionar-se. No entanto, o que têm de positivo é uma preparação para o cristianismo, que chegando leva à plenitude todas as religiões).

O erro de Marcião está em ele dizer que havia dois mundos impermeáveis um ao outro. É um mesmo Verbo que opera obscuramente no mundo não-cristão e no mundo judeu e que, tendo familiarizado o homem consigo, aproximou-se, em seguida, do homem. Era preciso, segundo o belo pensamento de Santo Irineu, que o homem adquirisse costumes divinos e Deus se humanizasse, porque mesmo a Encarnação é coisa que não se improvisa e tudo na obra de Deus se faz no tempo. E isso acontece na educação de cada um de nós, que reproduz a própria história de humanidade e realiza também essa familiarização progressiva com as coisas divinas (Observação minha: Temos aqui um pensamento delicado e caro a vários Padres da Igreja. Perguntavam os pagãos: Por que Deus demorou tanto para enviar o seu Filho? E a resposta era esta: Deus foi educando, preparando a humanidade e, na plenitude dos tempos, enviou o seu Filho. Marcião recusa-se a ver esse desenvolvimento do plano de Deus e considera mau tudo quanto não é especificamente cristão, inclusive o Antigo Testamento. Uma posição como essa jamais foi condividida pela Igreja).

Há, ao mesmo tempo, uma descontinuidade, pois que, entre o momento em que o Cristo é dado e o momento em que ele era somente preparado e anunciado, encontra-se um abismo. Tocamos então na diferença essencial que há entre o cristianismo e judaísmo ou as religiões não-cristãs. Para os Padres da Igreja a diferença não se encontra, antes de tudo, na própria doutrina: grande parte da Revelação já se encontrava no judaísmo. E, para eles, alguns filósofos pagãos já tinham um certo conhecimento de Deus: mesmo Santo Agostinho afirma que Platão conheceu o mistério da Trindade (Observação minha: Observe-se o equilíbrio do Autor. Se há uma certa continuidade entre religiões não-cristãs e cristianismo, muito maior é a descontinuidade, pois que o cristianismo é novidade radical: Cristo trouxe toda a novidade quando se trouxe a si mesmo. Quanto ao pensamento de Agostinho sobre Platão conhecer a Trindade, é uma opinião pessoal do Santo Doutor, opinião que hoje de modo algum pode ser sustentada).

O abismo que há entre o Antigo e o Novo Testamento é o mesmo que existe entre o anúncio de um fato e sua realização. Isso faz-nos, mais uma vez, descobrir que o cristianismo é essencialmente uma vida e não uma filosofia. Ser cristão, para nós, é viver em estado de graça, na familiaridade com Deus. Ora, isso constitui uma novidade total (Observação minha: É necessário dar toda a força e urgência a esta afirmação! Afirmar que o cristianismo é vida na graça de Deus, é afirmar que ser cristão é viver na amizade com Deus porque se vive em comunhão de amor e intimidade com Cristo. Este é o grande desafio de hoje! A tentação atual é reduzir o cristianismo a uma desfibrada ideologia humanística - basta escutar os tristes comentários às leituras da missa dominical trazidos por esses livrinhos de liturgia década dia - e a uma ONG filantrópica. A verdade é que o cristianismo existe por um motivo só: fazer com que as pessoas encontrem Jesus e nele tenham a vida eterna. O resto, por importante que seja, é absolutamente secundário em relação ao conhecimento amoroso do Cristo Jesus, nosso Senhor).

Em belíssima passagem, Santo Irineu escreve: "Sabei que ele trouxe uma novidade total: depois de anunciado deu-se pessoalmente. A vinda de um rei é anunciada aos súditos, por enviados, a fim de que se preparem para recebê-lo; mas, quando chega o próprio rei e todos gozam da alegria anunciada, da liberdade que ele traz, quando o vêem, ouvem suas palavras e experimentam seus dons, que homem sensato perguntaria ainda o que há de novo em relação ao que foi somente anunciado?"

Vemos, pois, que, para um homem como Irineu, as descontinuidades existem realmente; de fato, há algo de radicalmente novo no cristianismo, o que, entretanto, não impede uma continuidade e unidade entre ele e tudo o que o precedera.

  


 Santo Irineu: a Novidade é Cristo



Escrito por Pe. Henrique às 02h00
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